História

HISTÓRIA

O protótipo aparece na Universidade de Berkeley, em 1997. Christopher Shein cultivava, vendia e dava, emprestando, o excedente de sementes aos estudantes da Universidade de Berkeley. As sementes plantadas deram origem à UC Berkeley Gil Tract, que é hoje uma quinta comunitária.

Em 1999, Christopher e os amigos do Centro Ecológico de Berkeley criaram a BASILBay Area Seed Interchange Library – um projeto urbano de sementes, autónomo e com base na comunidade, que surgia no seio da luta anti-globalização (os protestos em Seattle contra a Organização Mundial do Comércio aconteceram nesse mesmo ano). O objetivo é o de disseminar e celebrar variedades locais de sementes e aumentar a consciência sobre a relação entre a biodiversidade cultural e biológica, numa contra-resposta afirmativa e direta à globalização económica.

A partir daí, despontaram diversas Seed Libraries ou projetos complementares (bancos comunitários de sementes ou redes de troca de sementes) até que em 2010, também na Califórnia, a biblioteca pública de Richmond acolhe uma Biblioteca de Empréstimo de Sementes. A Richmond Grows seeds lending library é gerida por voluntários que aproveitam o dispositivo da biblioteca pública (o espaço físico, o sistema de organização e de empréstimo, os recursos bibliográficos) e adaptam-no a um novo recurso: sementes de “open pollinated varieties(variedades de polinização aberta) e/ou asheirloom seeds(sementes tradicionais). Tal como numa rede de bibliotecas públicas, que segue uma lógica local, descentralizada e de necessária proximidade à comunidade de leitores, o movimento das seed lending libraries espalhou-se geograficamente nos EUA e o número de bibliotecas de sementes continua a multiplicar-se, fornecendo a quem se interessar numerosos recursos provenientes destas experiências.semente-4

Em França, as bibliotecas de sementes adoptaram o nome de Grainothèques. O movimento é impulsionado pela associação Graines de Troc e aparece num momento crucial da luta contra a Lei Europeia das Sementes que previa restringir o direito dos agricultores e horticultores a usarem e trocarem as suas sementes. No sentido contra-corrente, animada por um espírito de partilha e troca livre de sementes e inspirada pelos exemplos de associativismo em França e na Bélgica já ligado às questões da liberdade da semente, soberania alimentar, permacultura e agroecologia: Kokopelli, Les Incroyables Comestibles, Colibris, Fraternités Ouvrières, surge em Outubro de 2013 a primeira Grainothèque, em La Rochelle. A par desta iniciativa, a associação Graines de Troc tem uma plataforma em linha para troca de sementes e mantém nesse sítio um mapa de grainothèques, em que temos podido acompanhar a sua rápida proliferação em todo o território (e são 400, no início de 2017). A principal ênfase das Grainothèques é a troca livre (mais do que o empréstimo) e a « partilha da abundância », a defesa da singularidade das sementes camponesas e das variedades tradicionais face a certas sementes industriais (nomeadamente os híbridos F1), a estandardização das sementes e a perda de biodiversidade cultivada. Outro dos aspetos é a simplicidade – uma caixa de cartão e pacotes de sementes – o que permitiu a sua instalação em locais muito distintos : não só bibliotecas ou mediatecas, mas associações, restaurantes, cafés ou escolas.semente-4

Navdanya significa “9 sementes” – um sistema de cultivo que simboliza a soberania alimentar coletiva com base no conhecimento tradicional. É uma rede de guardiãs de sementes e agricultores, espalhada por 18 estados. A Índia foi um país particularmente atingido pela Revolução “Verde” e o cultivo de algodão OGM, o que terá levado à erosão dos modos tradicionais de cultivo e das sementes autóctones, o endividamento das famílias que dependiam do cultivo de algodão e a um número alarmante de suicídios entre agricultores. Para recuperar desta catástrofe, a organização (que também é uma ONG) ajudou a estabelecer bancos comunitários de sementes tradicionais, com objetivo de recolher, conservar, multiplicar e distribuir sementes de variedades locais. Formou agricultores em soberania alimentar, agroecologia e agricultura sustentável. Fundou a Escola da Semente/Universidade da Terra (Bija Vidyapeeth) e mantém uma pequena quinta no norte da Índia para estudo e conservação da biodiversidade local. Atua também a nível económico, mantendo uma rede de comércio justo e promovendo  marketing direto a uma alimentação baseada nas variedades locais. Internacionalmente, pela voz de Vandana Shiva, lidera a Campanha Internacional pela Sementes Livres lutando contra patentes, a bio-pirataria e o controlo corporativo das sementes, da terra e da alimentação. Por outro lado, defende a semente, a cultura e conhecimento indígena, documentam e apoia diversas estratégias para “libertar” sementes. Ainda que, no caso de Navdanya, a infraestrutura principal seja a rede de bancos comunitários de sementes, há muitas estratégias diferentes e é importante escolher a que melhor se adapta a cada contexto. A call to action do ano 2015, com o tema da Desobediência Civil – Satyagraha – não cooperação com leis injustas, referia:

“Apoiaremos as nossas bibliotecas de sementes locais como fontes de semente fértil e livre.”

Seed Satyagraha Pledge

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O cruzamento destas histórias resulta na proposta da ideia de «Sementeca».